Exemplar de pirarucu Arapaima gigas em lago da Amazônia

Cientistas avançam na reprodução artificial do pirarucu e aproximam setor de nova revolução na piscicultura.

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Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Tocantins, alcançaram um avanço considerado histórico para a criação de pirarucu em cativeiro. Pela primeira vez, cientistas avançam na reprodução artificial do pirarucu, coletando e analisando com sucesso o sêmen da espécie, além de descrever detalhadamente suas células espermáticas, etapa considerada fundamental para o desenvolvimento de protocolos de reprodução artificial do maior peixe de escamas de água doce do mundo.

O resultado representa um passo decisivo para resolver um dos maiores desafios da piscicultura brasileira: produzir alevinos de pirarucu de forma regular e controlada, sem depender exclusivamente da reprodução natural dos animais.

Os dados foram publicados na revista científica Fishes e fazem parte das pesquisas desenvolvidas dentro do projeto internacional Aquavitae, considerado um dos maiores consórcios científicos voltados à aquicultura mundial.

Reprodução do pirarucu ainda depende da natureza.

Apesar do crescimento da criação comercial do pirarucu nos últimos anos, a reprodução da espécie ainda ocorre, em grande parte, de forma natural.

Diferentemente da tilápia, cuja reprodução em cativeiro já é amplamente dominada pela ciência, o pirarucu continua apresentando desafios biológicos e de manejo que dificultam a produção em larga escala.

Atualmente, produtores formam casais reprodutores e aguardam que eles realizem a desova naturalmente. O problema é que nem todos os casais reproduzem todos os anos.

Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, em muitas propriedades apenas três ou quatro casais conseguem se reproduzir dentro de um universo de dez a quinze pares formados.

Essa limitação reduz a disponibilidade de alevinos e impede uma expansão mais acelerada da cadeia produtiva.

Nove anos de pesquisas

O trabalho conduzido pela Embrapa é resultado de aproximadamente nove anos de pesquisas focadas na biologia reprodutiva da espécie.

De acordo com o pesquisador Lucas Torati, que lidera os estudos, o objetivo é criar uma base científica sólida para que futuramente seja possível realizar a reprodução artificial do pirarucu de maneira semelhante ao que já ocorre com outras espécies cultivadas comercialmente.

O avanço mais recente envolve justamente uma das etapas mais complexas do processo: a obtenção e conservação de material genético masculino.

A coleta de sêmen viável abre caminho para futuras pesquisas envolvendo fertilização artificial, criopreservação genética e programas de melhoramento da espécie.

Cientistas avançam na reprodução artificial do pirarucu

Identificar machos e fêmeas era um dos maiores obstáculos.

Antes mesmo de pensar em reprodução artificial, os pesquisadores precisaram resolver outro problema histórico da criação de pirarucu: a identificação do sexo dos animais.

O pirarucu não apresenta diferenças externas evidentes entre machos e fêmeas, dificultando a formação de casais reprodutores.

Para superar esse desafio, os cientistas desenvolveram uma técnica conhecida como canulação, que permite acessar estruturas internas do sistema reprodutivo e identificar o sexo do peixe com elevado grau de precisão.

Além da identificação sexual, o método também permite avaliar o estágio de maturação das fêmeas, informação essencial para futuros protocolos de indução hormonal.

Segundo os pesquisadores, a técnica apresenta índices de acerto entre 80% e 100%.

Produtor aumentou reprodução após adotar técnica.

Os resultados da pesquisa já começaram a gerar impactos práticos dentro das pisciculturas.

Um dos casos relatados pelos cientistas é o do produtor Moisés Zorzeto Neto, proprietário da Piscicultura Raça, localizada em Canabrava do Norte, no Mato Grosso.

Após implementar a técnica desenvolvida pela Embrapa, o piscicultor conseguiu organizar melhor suas matrizes reprodutoras e ampliar significativamente o número de reproduções anuais.

Segundo ele, antes do novo método, cada casal produzia uma ou duas desovas por ano.

Com a identificação adequada dos animais e o manejo mais eficiente, esse número passou a chegar a até sete reproduções anuais por casal.

O aumento na produção representa uma mudança importante para a disponibilidade de alevinos no mercado.

Anatomia do pirarucu exigiu soluções inéditas.

Durante os estudos, os pesquisadores perceberam que a anatomia reprodutiva do pirarucu apresenta diferenças importantes em relação a outras espécies de peixes.

Para entender melhor essas características, a equipe utilizou equipamentos normalmente empregados na medicina humana.

Um dos dispositivos utilizados foi um ureterorrenoscópio, equipamento empregado em procedimentos relacionados à remoção de cálculos renais.

A partir dessas análises, os cientistas conseguiram desenvolver ferramentas mais simples e adaptadas à realidade da piscicultura.

O conhecimento adquirido permitiu acessar a cavidade onde se localizam os ovários e identificar quais fêmeas já estão aptas para futuras técnicas de indução reprodutiva.

Coleta de sêmen era considerada impossível.

Um dos pontos mais relevantes do estudo foi a obtenção bem-sucedida de sêmen do pirarucu.

Pirarucu criado em sistema de aquicultura para pesquisas reprodutivas

Até poucos anos atrás, muitos especialistas consideravam essa coleta praticamente inviável devido às características anatômicas da espécie.

As primeiras tentativas enfrentaram dificuldades relacionadas à contaminação por urina, fator que compromete a qualidade das amostras e ativa prematuramente os espermatozoides.

Para resolver o problema, os pesquisadores desenvolveram procedimentos específicos capazes de bloquear o canal urinário durante a coleta.

A solução permitiu obter amostras adequadas para análise laboratorial e abriu uma nova fase nas pesquisas sobre reprodução artificial da espécie.

Descobertas inéditas sobre os espermatozoides.

Com a coleta viabilizada, os pesquisadores conseguiram realizar análises detalhadas das células reprodutivas masculinas.

Entre as descobertas mais relevantes está a identificação de que os espermatozoides do pirarucu possuem dois flagelos, característica pouco comum entre peixes cultivados comercialmente.

As análises também revelaram informações sobre:

  • Estrutura celular;
  • Presença de mitocôndrias;
  • Tempo de motilidade;
  • Características morfológicas;
  • Potencial reprodutivo.

Esses dados formam a base científica necessária para futuros protocolos de fertilização artificial.

Próxima etapa será a fertilização artificial.

Com os avanços na coleta de sêmen, o próximo objetivo dos pesquisadores será sincronizar corretamente o processo reprodutivo das fêmeas.

A meta é identificar com precisão o momento da ovulação para coletar ovócitos e realizar testes de fertilização artificial utilizando o material genético já obtido dos machos.

Caso essa etapa seja bem-sucedida, o setor poderá avançar para uma produção controlada de alevinos ao longo de todo o ano.

Isso reduziria significativamente a dependência dos ciclos naturais de reprodução.

Banco genético poderá ser criado.

Outra linha de pesquisa prevista para os próximos anos envolve a criopreservação do material genético da espécie.

A técnica consiste no congelamento de sêmen em condições controladas, permitindo seu armazenamento por longos períodos.

Esse processo já é amplamente utilizado em diversas espécies de peixes cultivados comercialmente e pode representar uma ferramenta estratégica para:

  • Conservação genética;
  • Melhoramento de linhagens;
  • Segurança reprodutiva;
  • Recuperação de populações.

Além dos benefícios produtivos, a tecnologia também pode contribuir para programas de conservação do pirarucu.

Close lateral de exemplar adulto de pirarucu

Projeto internacional reúne 16 países.

Os estudos fazem parte do projeto Aquavitae, financiado principalmente pelo programa europeu Horizon 2020.

Com orçamento aproximado de oito milhões de euros, a iniciativa reuniu 29 instituições científicas de 16 países.

O objetivo foi desenvolver soluções para aumentar a produção aquícola sustentável em diferentes regiões do Atlântico.

No Brasil, as pesquisas envolveram parcerias entre:

  • Embrapa;
  • Universidade Estadual Paulista (Unesp);
  • Instituto Norueguês de Pesquisa Alimentar (Nofima);
  • Empresas privadas;
  • Produtores rurais.

Segundo os pesquisadores, a forte participação do setor produtivo ajudou a direcionar os estudos para demandas reais da cadeia aquícola.

Peixe pirarucu em viveiro de criação comercial

Avanço pode transformar a produção de pirarucu.

Considerado um dos peixes mais valiosos da aquicultura brasileira, o pirarucu possui grande potencial econômico tanto no mercado nacional quanto internacional.

Sua carne é altamente valorizada pela gastronomia e outros subprodutos, como couro e escamas, também encontram aplicações comerciais.

Com a possibilidade futura de reprodução artificial controlada, especialistas acreditam que o setor poderá ampliar a produção, reduzir gargalos na oferta de alevinos e fortalecer ainda mais a piscicultura amazônica.

O avanço alcançado pela Embrapa representa um dos passos mais importantes já registrados na tentativa de domesticar completamente a reprodução da espécie, objetivo perseguido pela ciência brasileira há décadas.

Fonte principal: Embrapa Pesca e Aquicultura.

Fonte científica: Revista Fishes (MDPI).

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